{"id":24495,"date":"2020-01-15T15:35:48","date_gmt":"2020-01-15T17:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/anadem.org.br\/site\/?p=24495"},"modified":"2020-01-15T15:35:48","modified_gmt":"2020-01-15T17:35:48","slug":"em-vez-de-reduzir-danos-maconha-pode-piorar-vicio-em-cocaina-e-crack-diz-estudo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/?p=24495","title":{"rendered":"Em vez de reduzir danos, maconha pode piorar v\u00edcio em coca\u00edna e crack, diz estudo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Pessoas com depend\u00eancia em coca\u00edna foram acompanhadas por cientistas brasileiros buscando entender o que acontece quando tamb\u00e9m h\u00e1 o uso de maconha<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por <strong>BBC<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pessoas com depend\u00eancia em coca\u00edna e crack por vezes associam fumar maconha a uma forma de atenuar a &#8220;fissura&#8221;, ou ansiedade, por aquelas drogas. Essa associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi inclusive endossada no passado por pesquisas cient\u00edficas e profissionais de sa\u00fade como estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 o que indicam agora pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em um artigo publicado em dezembro no peri\u00f3dico internacional Drug and Alcohol Dependence.<\/p>\n<p>Acompanhando o hist\u00f3rico de 123 pessoas em etapas de um, tr\u00eas e seis meses \u2014 63 dependentes de coca\u00edna e usu\u00e1rios recreativos de maconha; 24 dependentes de coca\u00edna, apenas; e 36 volunt\u00e1rios saud\u00e1veis, sem hist\u00f3rico de uso de drogas, compondo um grupo controle \u2014, os autores afirmam praticamente &#8220;descartar&#8221; o uso da maconha fumada como estrat\u00e9gia de tratamento para dependentes de coca\u00edna.<\/p>\n<p>Isto porque, a m\u00e9dio e longo prazo, a associa\u00e7\u00e3o entre essas drogas mostrou maior propens\u00e3o \u00e0 reca\u00edda e piora em capacidades cognitivas, como na aten\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria. Mas n\u00e3o descartam, por\u00e9m, o potencial de explora\u00e7\u00e3o para tratamento da depend\u00eancia em coca\u00edna de uma subst\u00e2ncia espec\u00edfica da maconha, o canabidiol, que, isolado, tem demonstrado seu efeito terap\u00eautico para outros usos.<\/p>\n<p>Apesar de ser focar dependentes de coca\u00edna (ou crack, originado da mesma planta, mas fumado), os pesquisadores da USP dizem que seus resultados t\u00eam resson\u00e2ncia no uso recreativo da maconha pelo p\u00fablico em geral e seus efeitos psiqui\u00e1tricos (confira mais abaixo).<\/p>\n<p>&#8220;A coca\u00edna est\u00e1 no grupo das subst\u00e2ncias denominadas estimulantes, como a metanfetamina e outros sint\u00e9ticos. J\u00e1 a maconha tem uma classifica\u00e7\u00e3o de droga perturbadora da atividade mental, que pode produzir efeitos psic\u00f3ticos, mas cujo uso \u00e9 associado a uma sensa\u00e7\u00e3o de relaxamento, de diminui\u00e7\u00e3o da ansiedade. S\u00e3o efeitos encarados como complementares, portanto a frequ\u00eancia que vemos dos usu\u00e1rios associarem essas subst\u00e2ncias&#8221;, explica Herc\u00edlio Pereira de Oliveira J\u00fanior, primeiro autor do artigo, doutor e pesquisador em psiquiatria na Faculdade de Medicina da USP.<\/p>\n<p><strong>Resultados in\u00e9ditos<\/strong><\/p>\n<p>Os dependentes em coca\u00edna participantes passaram um m\u00eas tratando-se em interna\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da USP e, depois, foram acompanhados pela equipe. Eles eram predominantemente homens, com idades entre 25 e 35 anos e mais ou menos dez anos de escolaridade. J\u00e1 o grupo controle foi formado por funcion\u00e1rios do hospital e de um posto policial pr\u00f3ximo; por estudantes de uma escola nas redondezas; e moradores da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um m\u00eas ap\u00f3s a alta, mantiveram a abstin\u00eancia 77% dos dependentes de coca\u00edna que tamb\u00e9m fumavam maconha; ap\u00f3s tr\u00eas meses, 35%; seis meses, 19%.<\/p>\n<p>J\u00e1 no grupo de dependentes de coca\u00edna que n\u00e3o fizeram uso de maconha, 70% mantiveram a abstin\u00eancia ap\u00f3s um m\u00eas de alta; tr\u00eas meses depois, o percentual foi de 44%; e seis meses, 24%.<\/p>\n<p>Assim, no primeiro m\u00eas, o grupo que tamb\u00e9m fumava maconha se manteve mais abstinente, mas depois do terceiro m\u00eas, a tend\u00eancia se inverteu, indicando poss\u00edveis danos desta combina\u00e7\u00e3o de drogas em um prazo maior.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o ao grupo controle, o estudo encontrou ainda piores indicadores neurocognitivos nos dois grupos dependentes de coca\u00edna em habilidades como mem\u00f3ria, velocidade de processamento e tomada de decis\u00e3o. Mas aqueles que usavam tamb\u00e9m maconha tiveram resultados ainda piores nas chamadas fun\u00e7\u00f5es executivas \u2014 ligadas por exemplo \u00e0 capacidade de sustentar a aten\u00e7\u00e3o em certos contextos, memorizar informa\u00e7\u00f5es e planejar comportamentos mais complexos. Estes mostraram ainda maior dificuldade para frear impulsos.<\/p>\n<p>Estas habilidades foram medidas com testes cognitivos e exames de neuroimagem. Durante o processo, os participantes foram monitorados tamb\u00e9m com exames de urina, para verificar o eventual uso de drogas.<\/p>\n<p>Os autores defendem o ineditismo dos experimentos resultados, at\u00e9 mesmo a n\u00edvel mundial, por incluir uma amostra razoavelmente homog\u00eanea e numerosa, um grupo controle, testes de urina para excluir o uso de outras drogas e uma bateria intensa de testes de acompanhamento.<\/p>\n<p>Mas apontam tamb\u00e9m limita\u00e7\u00f5es, como a n\u00e3o considera\u00e7\u00e3o de outras vari\u00e1veis que n\u00e3o o uso de drogas com poss\u00edvel interfer\u00eancia em fun\u00e7\u00f5es cognitivas, por exemplo a qualidade do sono; e ainda a falta de um grupo formado por usu\u00e1rios exclusivamente de maconha, que poderia contribuir para o entendimento isolado dos impactos desta droga.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia com metadona na reabilita\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios de hero\u00edna<\/strong><\/p>\n<p>Desde os anos 1990, subst\u00e2ncias como a metadona (do grupo dos opioides) t\u00eam sido usadas como estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos na reabilita\u00e7\u00e3o de dependentes de hero\u00edna e de outras drogas injet\u00e1veis, com resultados positivos em alguns pa\u00edses. A partir da experi\u00eancia com a hero\u00edna, alguns estudos anteriores \u2014 para o grupo da USP, com lacunas importantes e sem evid\u00eancias suficientes \u2014 vinham defendendo tamb\u00e9m a maconha fumada como estrat\u00e9gia eficaz no tratamento de usu\u00e1rios de coca\u00edna e crack.<\/p>\n<p>&#8220;Ficamos mais ou menos 20 anos com a ideia, com estudos pouco definidos e controlados, de que a maconha poderia fazer bem (no tratamento da depend\u00eancia em coca\u00edna). Alguns grupos e terapeutas chegavam a sugerir o uso de maconha para pacientes dependentes de coca\u00edna sem a valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;, diz Paulo Jannuzzi Cunha, um dos autores do artigo e professor da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tratamento farmacol\u00f3gico aprovado para o tratamento da depend\u00eancia de coca\u00edna. Em linhas gerais, especialistas indicam algumas estrat\u00e9gias, como a terapia cognitivo-comportamental e o tratamento m\u00e9dico-psiqui\u00e1trico de transtornos associados ao v\u00edcio, como depress\u00e3o e hiperatividade.<\/p>\n<p>O LIM-21 defende especificamente, no caso de crise e necessidade de desintoxica\u00e7\u00e3o, a interna\u00e7\u00e3o breve e de car\u00e1ter volunt\u00e1rio, para evitar o isolamento da sociedade, e com uma equipe multidisciplinar e t\u00e9cnica.<\/p>\n<p><strong>O que resultados com dependentes podem indicar sobre p\u00fablico mais amplo<\/strong><\/p>\n<p>Uma outra limita\u00e7\u00e3o do artigo publicado no Drug and Alcohol Dependence, segundo seus pr\u00f3prios autores, foi a impossibilidade de analisar o tipo de maconha usada pelos participantes, j\u00e1 que eles consumiam a droga em casa ou em suas atividades sociais.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o foi poss\u00edvel precisar se o TCH ou o canabidiol (CBD), duas das subst\u00e2ncias mais importantes na maconha, puderam ter maior ou menor contribui\u00e7\u00e3o para os efeitos negativos em usu\u00e1rios de coca\u00edna e crack.<\/p>\n<p>Em outras frentes, o canabidiol especificamente tem se destacado por seus efeitos terap\u00eauticos.<\/p>\n<p>&#8220;Existem alguns estudos mostrando que o CBD puro pode ser terap\u00eautico em v\u00e1rias quest\u00f5es psiqui\u00e1tricas. A gente n\u00e3o tem ainda nenhum estudo com o CBD como tratamento que poderia ser dado para o paciente. \u00c9 poss\u00edvel que o CBD isolado e controlado \u2014 e n\u00e3o a maconha fumada, nosso estudo praticamente descartou essa estrat\u00e9gia \u2014 possa trazer algum benef\u00edcio (no tratamento para depend\u00eancia em coca\u00edna). Precisa ser investigado&#8221;, diz Cunha.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o destaca que, isoladas, coca\u00edna e maconha j\u00e1 tiveram constatados efeitos negativos em fun\u00e7\u00f5es neurocognitivas. Da coca\u00edna, estudos j\u00e1 apontaram para d\u00e9ficit na aten\u00e7\u00e3o, flu\u00eancia verbal, processamento espacial e altas taxas de morbidade e mortalidade. A maconha, por sua vez, j\u00e1 foi associada a d\u00e9ficits na aten\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, aprendizado verbal \u2014 em casos de um uso mais intenso ao longo da vida, pode haver consequ\u00eancias mais s\u00e9rias, como dano no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal e psicose.<\/p>\n<p>&#8220;A associa\u00e7\u00e3o entre cannabis e coca\u00edna \u00e9 um fen\u00f4meno atual e relevante que inclui a\u00e7\u00f5es misturadas das drogas e intera\u00e7\u00f5es frequentemente desconhecidas&#8221;, diz o artigo sobre a combina\u00e7\u00e3o entre as drogas.<\/p>\n<p>No estudo com os 123 dependentes e volunt\u00e1rios, os pesquisadores perceberam tamb\u00e9m que, quanto mais cedo na vida estes pacientes come\u00e7aram a usar maconha e coca\u00edna, maiores as chances de reca\u00edda. Segundo os autores, isto vai ao encontro de uma literatura que j\u00e1 vem mostrando de forma consolidada que o uso precoce destas drogas tem efeito importante no desenvolvimento do c\u00e9rebro e em dist\u00farbios psiqui\u00e1tricos, al\u00e9m de estar associado a n\u00edveis mais baixos de sucesso escolar e empregabilidade.<\/p>\n<p>&#8220;O amadurecimento biol\u00f3gico do c\u00e9rebro est\u00e1 muito forte na adolesc\u00eancia e pode ser muito abalado pelo uso de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas como a maconha&#8221;, diz Cunha.<\/p>\n<p>Para os autores, apesar de focado em dependentes em coca\u00edna, o estudo traz indica\u00e7\u00f5es sobre os efeitos da maconha fumada para um p\u00fablico mais geral.<\/p>\n<p>&#8220;A maconha \u00e9 a droga conhecida que tem maior poder para desencadear sintomas psic\u00f3ticos. Isso \u00e9 bastante consolidado. E linhagens de maconha com mais THC est\u00e3o mais associadas a sintomas \u2014 \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o praticamente estat\u00edstica&#8221;, diz Oliveira J\u00fanior.<\/p>\n<p>Entrevistados pela BBC News Brasil, ele e Paulo Jannuzzi Cunha dizem ter opini\u00f5es pessoais sobre iniciativas como a libera\u00e7\u00e3o do uso recreativo do uso da maconha. Mas, como pesquisadores, defendem pol\u00edticas e decis\u00f5es p\u00fablicas baseadas em evid\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: GETTY IMAGES<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pessoas com depend\u00eancia em coca\u00edna foram acompanhadas por cientistas brasileiros buscando entender o que acontece quando tamb\u00e9m h\u00e1 o uso de maconha &nbsp; Por BBC &nbsp;<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":24496,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-24495","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/110513183_gettyimages-478709200.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24495\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/24496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}