{"id":25952,"date":"2020-04-30T17:38:44","date_gmt":"2020-04-30T20:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/anadem.org.br\/site\/?p=25952"},"modified":"2020-04-30T17:38:44","modified_gmt":"2020-04-30T20:38:44","slug":"coronavirus-testes-rapidos-em-farmacias-confundem-mais-do-que-informam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/?p=25952","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus: testes r\u00e1pidos em farm\u00e1cias confundem mais do que informam"},"content":{"rendered":"<p><em>Em artigo para a Revista Quest\u00e3o de Ci\u00eancia, cientista discute os riscos da libera\u00e7\u00e3o de testes r\u00e1pidos para detectar o coronav\u00edrus em farm\u00e1cias<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por <strong>Sa\u00fade \u00e9 Vital<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia Nacional de Vigi\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) decidiu liberar a realiza\u00e7\u00e3o dos chamados \u201ctestes r\u00e1pidos\u201d para detectar anticorpos do novo coronav\u00edrus (Sars-CoV-2) em farm\u00e1cias. A nota t\u00e9cnica publicada pela ag\u00eancia determina que os resultados dos testes realizados nesses estabelecimentos dever\u00e3o ter \u201cregistro e rastreabilidade\u201d garantidos, e os resultados devem ser informados \u00e0s autoridades. Mas, afinal, o que os resultados desses exames dizem?<\/p>\n<p>N\u00e3o muita coisa. A pr\u00f3pria nota da Anvisa sobre a libera\u00e7\u00e3o adverte para as limita\u00e7\u00f5es do procedimento. Diz o texto: \u201cO diagn\u00f3stico de Covid-19 n\u00e3o deve ser feito por uma avalia\u00e7\u00e3o isolada dos resultados dos testes r\u00e1pidos. No est\u00e1gio inicial da infec\u00e7\u00e3o, falsos negativos s\u00e3o esperados, em raz\u00e3o da aus\u00eancia ou de baixos n\u00edveis dos anticorpos e dos ant\u00edgenos de Sars-CoV-2 na amostra. E o resultado do teste positivo indica a presen\u00e7a de anticorpos contra o Sars-CoV-2, o que significa que houve exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus, n\u00e3o sendo poss\u00edvel definir apenas pelo resultado do teste se h\u00e1 ou n\u00e3o infec\u00e7\u00e3o ativa no momento da testagem\u201d.<\/p>\n<p>Existe muita confus\u00e3o, na opini\u00e3o p\u00fablica, entre os \u201ctestes r\u00e1pidos\u201d que permitiram \u00e0 Coreia do Sul rastrear e controlar a epidemia com grande efic\u00e1cia, e os \u201ctestes r\u00e1pidos\u201d dispon\u00edveis no Brasil. A verdade \u00e9 que se tratam de tecnologias muito diferentes, com finalidades e efic\u00e1cia muito diversas. Vamos entender isso.<\/p>\n<p><strong>Testes r\u00e1pidos com RNA ou anticorpos<\/strong><\/p>\n<p>Existem dois tipos de testes chamados \u201cr\u00e1pidos\u201d para Covid-19. O teste r\u00e1pido molecular, que foi usado na Coreia do Sul, \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do exame considerado o padr\u00e3o ouro para detec\u00e7\u00e3o do material gen\u00e9tico (RNA) do v\u00edrus, o RT-PCR. Este teste, feito do modo convencional, demora algumas horas. Suas vers\u00f5es r\u00e1pidas, vendidas por empresas como a americana Abbot ou a sul-coreana Seegene, reduzem esse tempo.<\/p>\n<p>Ambos, o lento e o r\u00e1pido, s\u00e3o testes precisos e feitos a partir de uma amostra do nariz e\/ou garganta do paciente, coletada por um \u201cswab\u201d, o cotonete de haste longa que precisa ser introduzido na garganta. Para fazer essa coleta, \u00e9 necess\u00e1rio treinamento especializado e equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI). Requer um laborat\u00f3rio adequado, e profissionais capacitados.<\/p>\n<p>Nenhum teste \u00e9 perfeito, e fatores que podem interferir, gerando um falso negativo (isto \u00e9, uma falha do teste em detectar o RNA), incluem erros na coleta \u2013 \u00e9 dif\u00edcil usar o swab, e o procedimento \u00e9 extremamente inc\u00f4modo para o paciente \u2013 e tamb\u00e9m acondicionamento inadequado da amostra. Ora, o RNA \u00e9 uma mol\u00e9cula que degrada com muita facilidade.<\/p>\n<p>Como os pa\u00edses que usaram esse teste com sucesso fizeram para superar esses problemas? Testaram v\u00e1rias vezes o mesmo paciente. E usaram o resultado para isolar os pacientes e rastrear e testar seus contatos, gerando assim um retrato da progress\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p>Este a\u00ed, o RT-PCR, \u00e9 o \u201cteste r\u00e1pido\u201d que n\u00e3o temos no Brasil. Por aqui, temos s\u00f3 a vers\u00e3o cl\u00e1ssica desse exame, que \u00e9 lenta, feita exclusivamente em laborat\u00f3rios e em hospitais capacitados.<\/p>\n<p>O outro \u201cteste r\u00e1pido\u201d, que \u00e9 o que a Anvisa autorizou nas farm\u00e1cias, \u00e9 o sorol\u00f3gico, que mede anticorpos contra a Covid-19. Detecta dois tipos de anticorpos, o IgM, que come\u00e7a a ser produzido aproximadamente 12 dias ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o, e o IgG, que passa a ser produzido depois de aproximadamente tr\u00eas semanas, e perdura no organismo, conferindo o que chamamos de mem\u00f3ria imunol\u00f3gica. Ap\u00f3s algumas semanas, o IgM diminui, e com o tempo sobra s\u00f3 o IgG.<\/p>\n<p>Esse teste n\u00e3o detecta a presen\u00e7a do v\u00edrus, ele s\u00f3 pode dizer se a pessoa j\u00e1 teve contato com o v\u00edrus e desenvolveu anticorpos em n\u00famero detect\u00e1vel. Por ser mais barato e f\u00e1cil de usar \u00e0 primeira vista, parece muito atraente. Mas \u00e9 preciso esclarecer qual sua real utilidade. O teste r\u00e1pido pode ajudar a mapear quem j\u00e1 teve a doen\u00e7a. Mas n\u00e3o serve para fazer diagn\u00f3stico preciso, nem para liberar pessoas da quarentena.<\/p>\n<p><strong>As limita\u00e7\u00f5es do teste r\u00e1pido sorol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>Como mede anticorpos, ele s\u00f3 vai funcionar depois de 10-12 dias da infec\u00e7\u00e3o. Assim, perde a janela inicial, onde pacientes assintom\u00e1ticos ou com sintomas leves est\u00e3o transmitindo o v\u00edrus.<\/p>\n<p>A sensibilidade (capacidade do teste de evitar falsos negativos) e a especificidade (capacidade de evitar falsos positivos) desses testes variam muito. Existem diversas marcas no mercado, e, como n\u00e3o h\u00e1 regulamenta\u00e7\u00e3o e valida\u00e7\u00e3o adequadas, n\u00e3o temos como garantir a qualidade do teste. Reino Unido e Espanha compraram lotes de testes da China que n\u00e3o funcionavam como prometido.<\/p>\n<p>O transporte dos kits de teste sem o acondicionamento adequado pode degradar reagentes, e at\u00e9 temperatura e umidade do ar podem fazer diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Finalmente, a interpreta\u00e7\u00e3o dos resultados requer cuidado. Um resultado negativo pode indicar que a pessoa nunca teve contato com o v\u00edrus, ou pode ser erro do teste (falso negativo). Um resultado positivo para IgM pode acontecer quando a pessoa ainda est\u00e1 com o v\u00edrus, ou algumas semanas depois do fim da doen\u00e7a. Um resultado positivo para IgG sugere que a pessoa teve o v\u00edrus e se recuperou, mas n\u00e3o garante imunidade.<\/p>\n<p>Sabendo de tudo isso, para que servem e para que n\u00e3o servem os testes r\u00e1pidos dispon\u00edveis no Brasil?<\/p>\n<p>Diagn\u00f3stico precoce: n\u00e3o servem. A janela de produ\u00e7\u00e3o de IgM varia muito e a quantidade produzida tamb\u00e9m. Mais: a sensibilidade e especificidade podem gerar falsos negativos e falsos positivos. Al\u00e9m disso, a sensibilidade aumenta com o tempo. Em uma popula\u00e7\u00e3o de 10 mil pessoas, por exemplo, o teste r\u00e1pido mais bem avaliado do mercado, com sensibilidade de 85% e especificidade de 99%, se usado ap\u00f3s tr\u00eas semanas da infec\u00e7\u00e3o, pode gerar 1 500 falsos negativos e 100 falsos positivos. Os falsos negativos, se mal interpretados, podem dar uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a para a pessoa, que se n\u00e3o for bem orientada, pode relaxar medidas de seguran\u00e7a e de isolamento.<\/p>\n<p>Auxiliar no diagn\u00f3stico hospitalar: podem ser \u00fateis. Considerando que muitos hospitais n\u00e3o disp\u00f5em de RT-PCR, e que a pessoa internada apresenta sintomas, diagn\u00f3stico cl\u00ednico, e provavelmente, alta taxa de anticorpos, o teste r\u00e1pido poderia ser utilizado para confirmar o diagn\u00f3stico. Neste caso, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para gerar dados sobre a real taxa de interna\u00e7\u00e3o e mortalidade.<\/p>\n<p>Liberar individualmente pessoas da quarentena: perigosos. Nesse caso, os falsos positivos podem sentir-se seguros quando, na verdade, nem t\u00eam anticorpos. E mesmo no caso dos que realmente s\u00e3o positivos, ainda n\u00e3o sabemos o suficiente para tomar a decis\u00e3o. Ainda precisamos compreender se esses anticorpos realmente atacam o v\u00edrus com sucesso, e se a imunidade \u00e9 duradoura.<\/p>\n<p>Medir imunidade de rebanho: pode ser \u00fateis, mas n\u00e3o agora. Enquanto a curva da doen\u00e7a est\u00e1 em sua fase exponencial, pouca gente tem anticorpos e o teste vai gerar uma resposta imperfeita. Quem quiser um exemplo num\u00e9rico bem dram\u00e1tico do tipo de distor\u00e7\u00e3o que os falsos positivos ou negativos podem causar deve visitar o blog do m\u00e9dico Ricardo Schnekenberg. Al\u00e9m disso: como os testes de farm\u00e1cia ser\u00e3o pagos, com custo m\u00e9dio estimado em 200 reais, esta parcela espec\u00edfica n\u00e3o ser\u00e1 representativa da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o aparente do governo federal, de apostar nesta ferramenta para embasar \u201ccientificamente\u201d o relaxamento da quarentena, \u00e9 preocupante. Instrumentos cient\u00edficos s\u00f3 s\u00e3o bons guias de pol\u00edticas p\u00fablicas quando reconhecemos e respeitamos suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Rodrigo Damati\/SA\u00daDE \u00e9 Vital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo para a Revista Quest\u00e3o de Ci\u00eancia, cientista discute os riscos da libera\u00e7\u00e3o de testes r\u00e1pidos para detectar o coronav\u00edrus em farm\u00e1cias &nbsp; Por Sa\u00fade<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":25953,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-25952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25952\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}