{"id":29774,"date":"2021-01-04T12:45:07","date_gmt":"2021-01-04T15:45:07","guid":{"rendered":"https:\/\/anadem.org.br\/site\/?p=29774"},"modified":"2021-01-04T12:45:07","modified_gmt":"2021-01-04T15:45:07","slug":"alcool-e-cafeina-sao-as-drogas-mais-consumidas-durante-a-pandemia-diz-neurocientista-carl-hart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/?p=29774","title":{"rendered":"\u00c1lcool e cafe\u00edna s\u00e3o as drogas mais consumidas durante a pandemia, diz neurocientista Carl Hart"},"content":{"rendered":"<p><em>Para o professor, o maior consumo dessas subst\u00e2ncias n\u00e3o implicar\u00e1 em depend\u00eancia p\u00f3s-covid<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por <strong>BBC<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c1lcool e cafe\u00edna s\u00e3o as drogas mais consumidas durante a pandemia, afirma o neurocientista americano Carl Hart \u2014 lembrando que a cafe\u00edna n\u00e3o est\u00e1 presente apenas no caf\u00e9 e na barra de chocolate, mas tamb\u00e9m em analg\u00e9sicos e inibidores de apetite.<\/p>\n<p>No entanto, para quem acha que, findo o isolamento, haver\u00e1 um n\u00famero maior de alco\u00f3latras e viciados em p\u00edlulas para emagrecer, Hart d\u00e1 um freio.<\/p>\n<p>Para o professor do departamento de Psicologia e Psiquiatria da Universidade Columbia, em Nova York, o maior consumo dessas subst\u00e2ncias n\u00e3o implicar\u00e1 depend\u00eancia p\u00f3s-covid.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o duvida que essas drogas venham a ser acusadas de degringolar ainda mais a sociedade para tirar o foco da inabilidade dos governos de lidar com os problemas socioecon\u00f4micos advindos da pandemia.<\/p>\n<p>Seria assim, em qualquer tempo e crise, com a coca\u00edna, o crack e os opioides \u2014 estes \u00faltimos apontados como um dos fatores da redu\u00e7\u00e3o gradativa da expectativa de vida nos EUA. &#8220;Culpar os opioides por qualquer diminui\u00e7\u00e3o na expectativa de vida \u00e9 ignor\u00e2ncia&#8221;, reage.<\/p>\n<p>Hart vem na toada de &#8220;desmistificar que as drogas necessariamente fazem mal&#8221; pelo menos desde de 1995, quando recebeu um grupo de jovens negros em seu laborat\u00f3rio em Bethesda, no Estado americano de Maryland. Ali, viu-se numa armadilha.<\/p>\n<p>Enquanto demonstrava na lousa a a\u00e7\u00e3o das drogas no c\u00e9rebro, os alunos queriam saber por que os pais deles pr\u00f3prios consumiam as mesmas. Simples assim para os estudantes, mas complicado demais para um cientista como Hart, que at\u00e9 ent\u00e3o se debru\u00e7ara apenas sobre ratos de laborat\u00f3rio, nunca sobre humanos.<\/p>\n<p>N\u00e3o que fosse cru na experi\u00eancia. A inf\u00e2ncia na periferia de Miami o fez presenciar gente pr\u00f3xima consumindo crack, cometendo crimes para garantir o consumo e se arruinando com morte precoce ou anos de pris\u00e3o. Na sua cabe\u00e7a, era certo que o caminho das drogas n\u00e3o tinha volta. Faltava confirmar isso.<\/p>\n<p>Durante o p\u00f3s-doutorado em Wyoming, no oeste dos EUA, agora lidando com gente, entendeu que essa dedu\u00e7\u00e3o fat\u00eddica estava viciada.<\/p>\n<p>A depender, por exemplo, da quantia de dinheiro que oferecia aos sujeitos de pesquisa, e isso fazia parte da metodologia da pesquisa, eles abriam m\u00e3o das doses. Hart afirmou que esses consumidores de crack e de metanfetamina eram mais senhores de seu destino do que presumiam a academia e as severas pol\u00edticas p\u00fablicas de combate.<\/p>\n<p>E passou a dizer em aulas e palestras: &#8220;Achei que seria capaz de curar a depend\u00eancia em drogas, mas, ao longo dos anos, aprendi que o problema n\u00e3o era o v\u00edcio, era a aplica\u00e7\u00e3o das leis&#8221;.<\/p>\n<p>Aos 54 anos, o americano assina dezenas de artigos cient\u00edficos na \u00e1rea de neuropsicofarmacologia e co-escreveu o livro Drugs, Society, and Human Behavior com o professor em\u00e9rito de neuroci\u00eancia Charles Ksir. Em maio de 2014, esteve no Brasil para lan\u00e7ar &#8220;Um Pre\u00e7o Muito Alto: a Jornada de um Neurocientista que Desafia Nossa Vis\u00e3o sobre Drogas e Sociedade (Zahar)&#8221;, no qual explica seus estudos e narra sua trajet\u00f3ria at\u00e9 se tornar o primeiro professor afrodescendente da Col\u00fambia, famoso tamb\u00e9m pelo dreadlock, hoje levemente grisalho.<\/p>\n<p>Hart voltou ao Pa\u00eds em 2015, quando viralizou a not\u00edcia de que teria sofrido preconceito no hotel em que se hospedou, em S\u00e3o Paulo. Informa\u00e7\u00e3o que ele desmentiu: &#8220;O que realmente importa s\u00e3o os negros discriminados dia ap\u00f3s dia no Brasil, n\u00e3o um professor burgu\u00eas, que se hospeda em hotel cinco estrelas&#8221;.<\/p>\n<p>Num sab\u00e1tico at\u00e9 julho, Hart antecipa, sem entrar em detalhes, que seu novo livro traz um cap\u00edtulo inteiro sobre o Brasil e sua pol\u00edtica antidrogas. Drug Use for Grown-Ups: Chasing Liberty in the Land of Fear (Uso de drogas para adultos: em busca da liberdade na terra do medo) ser\u00e1 lan\u00e7ado em janeiro e ainda n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 Quais drogas t\u00eam sido mais consumidas nesses meses de pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>Carl Hart \u2014 O \u00e1lcool e a cafe\u00edna s\u00e3o as drogas psicoativas mais amplamente dispon\u00edveis. Portanto, s\u00e3o as mais consumidas. O \u00e1lcool pode ajudar a aliviar a ansiedade, e a cafe\u00edna, a dar um impulso energ\u00e9tico. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber como essas qualidades podem ser ben\u00e9ficas em uma situa\u00e7\u00e3o estressante como essa.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 Voc\u00ea costuma apontar mitos sobre o uso de drogas. Quais identificou durante a Covid-19?<\/strong><\/p>\n<p>Hart \u2014 Os mesmos mitos persistem, mas o maior deles \u00e9 &#8220;as drogas fazem mal&#8221;.<\/p>\n<p>A maioria das drogas recreativas faz as pessoas se sentirem bem. Caso contr\u00e1rio, essas pessoas n\u00e3o as aceitariam. Qualquer atividade que valha a pena envolve riscos e benef\u00edcios. Voar de avi\u00e3o \u2014 ou andar de autom\u00f3vel \u2014 traz o risco da morte. No entanto, praticamente todo mundo viaja por esses meios de transporte. Com as drogas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente. A maioria das pessoas n\u00e3o morre por us\u00e1-las. \u00c9 verdade que uma pequena porcentagem, sim. Mas os efeitos predominantes s\u00e3o positivos, como aumento da sociabilidade e euforia.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 Segundo estudo do Centro Nacional de Estat\u00edsticas de Sa\u00fade, divulgado em 2019, milhares de americanos morrem anualmente de overdose de opioides. O consumo seria epid\u00eamico a ponto de se tornar um dos fatores da redu\u00e7\u00e3o gradativa da expectativa de vida nos EUA. Seus estudos confirmam essa informa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Hart \u2014 Os eventos que levam a mortes relacionadas \u00e0s drogas costumam ser muito mais amb\u00edguos e complexos do que os relatos fazem acreditar. A no\u00e7\u00e3o de que &#8220;milhares de americanos morrem a cada ano de overdose de opioides&#8221; \u00e9 enganosa.<\/p>\n<p>Na maioria dos casos, mais de uma subst\u00e2ncia \u00e9 encontrada no corpo da pessoa falecida, e as concentra\u00e7\u00f5es dessas drogas geralmente n\u00e3o s\u00e3o determinadas. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, atribuir a morte a uma \u00fanica droga, porque n\u00e3o podemos saber qual delas, se \u00e9 que alguma, atingiu um n\u00edvel sangu\u00edneo que seria fatal por si s\u00f3.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, dizer que as overdoses de opioides diminu\u00edram a expectativa de vida \u00e9 simplesmente errado e imprudente. Em 2017, o n\u00famero total de mortes nos Estados Unidos foi de pouco menos de 3 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>As mortes atribu\u00eddas a opioides atingiram um pico de aproximadamente 47 mil, uma pequena fra\u00e7\u00e3o do total de mortes. Em contraste, o n\u00famero de mortes por doen\u00e7as card\u00edacas e c\u00e2ncer foi de mais de 655 mil e 600 mil, respectivamente. Esses n\u00fameros s\u00e3o altos h\u00e1 muitas d\u00e9cadas. Da mesma forma, o n\u00famero de americanos mortos por armas permaneceu em cerca de 40 mil por pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas. O mesmo se aplica \u00e0s mortes por acidentes automobil\u00edsticos. Culpar os opioides por qualquer diminui\u00e7\u00e3o na expectativa de vida \u00e9 ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 Uma das alternativas para tratar a depend\u00eancia de opioides \u00e9 usando anfetaminas, e h\u00e1 quem proponha utiliz\u00e1-las tamb\u00e9m para os dependentes de coca\u00edna. Acha esses tratamentos procedentes?<\/strong><\/p>\n<p>Hart \u2014 A abordagem agonista (uso de uma subst\u00e2ncia capaz de provocar uma resposta biol\u00f3gica similar \u00e0 produzida por outra) \u00e9 o tratamento mais eficaz. Mas o verdadeiro tratamento agonista para a coca\u00edna seria administrar a pr\u00f3pria coca\u00edna como parte desse tratamento.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 Em novembro, Oregon se tornou o primeiro Estado americano a descriminalizar o porte de drogas pesadas, como coca\u00edna, hero\u00edna, LSD e metanfetamina. Acredita que outros Estados americanos tender\u00e3o a fazer o mesmo nos pr\u00f3ximos anos? Que impacto a descriminaliza\u00e7\u00e3o teria sobre o consumo dessas drogas no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Hart \u2014 Espero que outros Estados sigam Oregon, assim como ocorreu com a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha em um ter\u00e7o do pa\u00eds. \u00c9 a coisa certa a fazer. Ningu\u00e9m deve ser preso pelo que colocou em seu pr\u00f3prio corpo. As pessoas est\u00e3o apenas tentando se sentir bem. \u00c9 rid\u00edculo prender algu\u00e9m com base nisso. \u00c9 como prender pessoas por se masturbarem. \u00c9 bobagem. A legaliza\u00e7\u00e3o das drogas provocaria uma diminui\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica nas pris\u00f5es por esse motivo. Tamb\u00e9m aumentaria a qualidade dos medicamentos usados. Isso j\u00e1 ocorreu com o \u00e1lcool e com a maconha nos locais onde a droga \u00e9 legal.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil \u2014 O uso de drogas tem um forte componente cultural. Voc\u00ea v\u00ea alguma diferen\u00e7a importante a esse respeito, considerando a cultura ocidental e oriental, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Hart \u2014 \u00c9 claro que as normas sociais influenciam a aceitabilidade do uso de drogas, o tipo usado, a hora do dia aceit\u00e1vel, entre outras coisas. Mas n\u00e3o acho que existam diferen\u00e7as importantes entre o Ocidente e o Oriente que j\u00e1 n\u00e3o tenham sido observadas em subculturas na sociedade em geral &#8211; digamos, em um lugar como o Brasil. As normas culturais do brasileiro rico sobre o uso de drogas, por exemplo, diferem das normas dos brasileiros menos abastados.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; No Brasil, a guerra contra a ind\u00fastria do tabaco foi bastante eficiente. Se, em 1989, 35% da popula\u00e7\u00e3o brasileira fumava, at\u00e9 o ano passado essa propor\u00e7\u00e3o tinha ca\u00eddo para menos de 10%. Com o isolamento social em 2020, no entanto, teria havido um aumento de 34% no consumo de cigarros. Voc\u00ea j\u00e1 afirmou que o cigarro pode ser mais viciante que a coca\u00edna. Como lidar com o aumento do tabagismo?<\/strong><\/p>\n<p>Hart &#8211; O trabalho dos funcion\u00e1rios de sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 informar a popula\u00e7\u00e3o sobre os riscos associados a alimentos, a\u00e7\u00f5es, etc. A partir da\u00ed, os adultos devem ter permiss\u00e3o para tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es sobre se eles se engajam ou n\u00e3o em tais atividades. Fumar, por exemplo, pode aliviar o estresse, mas se essa atitude ou qualquer outra infringir os direitos de terceiros, as autoridades devem tomar medidas \u2014 se poss\u00edvel, sem proibir a atividade \u2014 para equilibrar a sa\u00fade p\u00fablica com as liberdades individuais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: Reuters<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o professor, o maior consumo dessas subst\u00e2ncias n\u00e3o implicar\u00e1 em depend\u00eancia p\u00f3s-covid &nbsp; Por BBC &nbsp; \u00c1lcool e cafe\u00edna s\u00e3o as drogas mais consumidas durante<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":29775,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-29774","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29774\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}