{"id":30166,"date":"2021-02-08T13:52:43","date_gmt":"2021-02-08T16:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/anadem.org.br\/site\/?p=30166"},"modified":"2021-02-08T13:52:43","modified_gmt":"2021-02-08T16:52:43","slug":"pandemia-pode-inspirar-esforcos-contra-doencas-tropicais-negligenciadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/?p=30166","title":{"rendered":"Pandemia pode inspirar esfor\u00e7os contra doen\u00e7as tropicais negligenciadas"},"content":{"rendered":"<p><em>Enfermidades que afetam 1,7 bilh\u00e3o de pessoas no mundo, sobretudo pobres, recebem pouca aten\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e baixo investimento p\u00fablico<\/em><\/p>\n<p>Por <strong>Revista Galileu<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o mundo luta contra a pandemia de Covid-19, um conjunto de 20 doen\u00e7as conhecidas h\u00e1 muitos anos, mas ainda sem tratamentos eficazes ou vacinas, mata at\u00e9 500 mil pessoas por ano, a imensa maioria pobres. O combate \u00e0s chamadas doen\u00e7as tropicais negligenciadas (DTNs), que afetam uma em cada cinco pessoas, ganhou um novo plano de a\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), com metas para serem cumpridas at\u00e9 2030. Al\u00e9m disso, como forma de engajar o p\u00fablico na causa, mais de 300 organiza\u00e7\u00f5es celebraram, em 30 de janeiro, o Dia Mundial para Doen\u00e7as Tropicais Negligenciadas.<\/p>\n<p>A erradica\u00e7\u00e3o ou mesmo a diminui\u00e7\u00e3o dos casos dessas 20 enfermidades, que incluem leishmaniose, doen\u00e7a de Chagas, dengue e zika, passa necessariamente pela compreens\u00e3o dos agentes infecciosos e pelo desenvolvimento de medicamentos e vacinas seguras, eficazes e acess\u00edveis. Por isso, especialistas apontam como essencial o investimento em pesquisa e desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u201cHoje h\u00e1 mais de 1,7 bilh\u00e3o de pessoas no mundo afetadas por essas doen\u00e7as, que causam n\u00e3o apenas mortes, mas uma grande morbidade, tirando muitos anos de vida \u00fatil de quem sobrevive. O Brasil, que re\u00fane grande parte das 20 doen\u00e7as tropicais negligenciadas, \u00e9 l\u00edder na Am\u00e9rica Latina em casos de doen\u00e7a de Chagas, leishmaniose, hansen\u00edase, dengue e esquistossomose\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP Adriano Andricopulo, professor do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo (IFSC-USP).<\/p>\n<p>O pesquisador coordena o projeto \u201cDescoberta de f\u00e1rmacos baseada na estrutura do receptor e do ligante para a Leishmaniose e a Doen\u00e7a de Chagas a partir de produtos naturais bioativos\u201d, financiado pela FAPESP (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo) e pelo Medical Research Council, do Reino Unido, numa parceria com a Universidade de Dundee, na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>Andricopulo \u00e9 ainda pesquisador e coordenador de transfer\u00eancia de tecnologia do Centro de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o em Biodiversidade e F\u00e1rmacos (CIBFar), um CEPID apoiado pela FAPESP no IFSC-USP. Atualmente, o grupo conta com dez candidatos a medicamento contra Chagas e cerca de 20 para leishmaniose.<\/p>\n<p><strong>Cons\u00f3rcio<\/strong><\/p>\n<p>O CIBFar integra o cons\u00f3rcio formado pela USP e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para a descoberta de medicamentos contra mal\u00e1ria e doen\u00e7as negligenciadas. Financiado pela FAPESP e pelas organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos Iniciativa Medicamentos para Doen\u00e7as Negligenciadas (DNDi) e Medicines for Malaria Venture (MMV), o projeto faz parte do Programa de Apoio \u00e0 Pesquisa em Parceria para Inova\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica (PITE) da FAPESP.<\/p>\n<p>O objetivo do cons\u00f3rcio, firmado no fim de 2020, \u00e9 desenvolver mol\u00e9culas que possam ser candidatas a testes cl\u00ednicos para leishmaniose, Chagas e mal\u00e1ria. Esta \u00faltima n\u00e3o faz parte da lista de 20 doen\u00e7as tropicais negligenciadas da OMS, por j\u00e1 contar com alternativas farmacol\u00f3gicas e mesmo uma vacina, ainda que com uma efic\u00e1cia de cerca de 30% em quatro doses. \u201cEu costumo dizer que a mal\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a tropical negligenciada, mas \u00e9 uma doen\u00e7a que afeta pessoas negligenciadas\u201d, diz Luiz Carlos Dias, professor do Instituto de Qu\u00edmica (IQ) da Unicamp e coordenador do projeto.<\/p>\n<p>Segundo dados da OMS, em 2018 a mal\u00e1ria matou 405 mil pessoas, 67% delas crian\u00e7as com menos de 5 anos. O parasita \u00e9 conhecido por criar resist\u00eancia rapidamente a medicamentos. E os dispon\u00edveis atualmente precisam ser ministrados em tr\u00eas doses ou mais. Por isso, o grupo liderado por Dias busca um f\u00e1rmaco que seja seguro para crian\u00e7as e mulheres gr\u00e1vidas, os grupos mais vulner\u00e1veis, e que possa ser administrado por via oral em uma \u00fanica dose. No caso da doen\u00e7a de Chagas, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 boas op\u00e7\u00f5es farmacol\u00f3gicas atualmente, o grupo admite uma alternativa que seja fracionada em mais doses.<\/p>\n<p>\u201cOs desafios s\u00e3o imensos. Em diversos momentos tivemos s\u00e9ries qu\u00edmicas muito promissoras, mas, \u00e0 medida que os testes avan\u00e7am descobrimos um poss\u00edvel efeito adverso. Quando isso ocorre, fazemos ajustes, mas isso pode gerar outro efeito indesejado, como perda de efic\u00e1cia, por exemplo. Chega uma hora que \u00e9 melhor descartar a possibilidade e come\u00e7ar tudo de novo com outra s\u00e9rie qu\u00edmica. \u00c9 uma r\u00e9gua muito comprida a que nos submetemos\u201d, explica o pesquisador, que atualmente realiza ensaios in vitro tanto para mal\u00e1ria quanto para doen\u00e7a de Chagas.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Para Dias, a pandemia de Covid-19 tem mostrado como investimentos de longo prazo, compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es e recursos humanos qualificados fazem a diferen\u00e7a no combate a doen\u00e7as infecciosas. Al\u00e9m disso, o combate ao novo coronav\u00edrus mostrou que \u00e9 poss\u00edvel acelerar as fases de desenvolvimento de medicamentos e vacinas sem diminuir a seguran\u00e7a e a efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil tem cientistas excepcionais e muita capacidade instalada, mas nos \u00faltimos anos perdeu muitas verbas para pesquisa. A pandemia tem mostrado a import\u00e2ncia de investimentos maci\u00e7os e cont\u00ednuos, al\u00e9m de uma ind\u00fastria nacional de insumos farmac\u00eauticos. Hoje temos uma depend\u00eancia muito grande da \u00cdndia e da China, principalmente, para esses produtos\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Para Charles Mowbray, diretor de pesquisa e desenvolvimento da DNDi, uma das financiadoras do cons\u00f3rcio, al\u00e9m do desenvolvimento mais r\u00e1pido de medicamentos e vacinas, a pandemia mostrou a necessidade de m\u00faltiplas abordagens em paralelo, como medicamentos e vacinas, para enfrentar desafios como resist\u00eancia e novas variantes dos pat\u00f3genos. \u201cTemos ainda de garantir que novos avan\u00e7os que aplicam as \u00faltimas tecnologias sejam disponibilizados para todos que precisam, n\u00e3o apenas para aqueles que podem pagar por elas\u201d, aponta o cientista.<\/p>\n<p>Andricopulo acredita que j\u00e1 haveria solu\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas para grande parte das doen\u00e7as tropicais negligenciadas se houvesse uma mobiliza\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 que est\u00e1 ocorrendo agora para o combate \u00e0 pandemia de Covid-19. \u201cNo entanto, os investimentos em pesquisas nessa \u00e1rea s\u00e3o muito limitados. No s\u00e9culo 21, n\u00e3o foi produzido nenhum medicamento inovador para qualquer uma das 20 doen\u00e7as tropicais negligenciadas. Esse \u00e9 um grande problema\u201d, diz.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, no entanto, iniciativas sem fins lucrativos como a DNDi e a Funda\u00e7\u00e3o Bill &amp; Melinda Gates t\u00eam investido na busca por medicamentos baratos e eficazes contra essas doen\u00e7as. O pesquisador da USP lembra ainda medidas de incentivo \u00e0 ind\u00fastria farmac\u00eautica, que historicamente n\u00e3o investe no desenvolvimento de medicamentos para essas doen\u00e7as porque n\u00e3o t\u00eam expectativa de lucro. Os projetos de desenvolvimento de novos f\u00e1rmacos nessa \u00e1rea levam em conta que eles devem ser doados ou vendidos a governos a pre\u00e7o de custo.<\/p>\n<p>Desde 2008, a Food and Drug Administration (FDA, ag\u00eancia norte-americana que regula medicamentos) reduz em at\u00e9 um ano o tempo de libera\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos potencialmente lucrativos (para c\u00e2ncer ou doen\u00e7as cardiovasculares, por exemplo) se a empresa que submeteu o pedido faz investimentos em pesquisas para doen\u00e7as negligenciadas.<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel desenvolver medicamentos, contudo, sem a compreens\u00e3o dos agentes que causam as doen\u00e7as, ou seja, dos v\u00edrus, bact\u00e9rias e parasitas. Projetos financiados pela FAPESP nos \u00faltimos anos t\u00eam buscado realizar esse trabalho, alguns em colabora\u00e7\u00e3o com parceiros internacionais como o Medical Research Council e o Newton Fund, do Reino Unido.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagn\u00f3stico, Gen\u00f4mica e Epidemiologia de Arbov\u00edrus (CADDE), projeto coordenado por Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP. Originalmente destinado ao estudo de doen\u00e7as como dengue e zika, o CADDE que tem sido fundamental, ainda, no combate ao novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cO conv\u00eanio com o Reino Unido \u00e9 uma experi\u00eancia de muito sucesso, que inclusive est\u00e1 sendo ampliada. T\u00ednhamos chamadas em per\u00edodos espec\u00edficos e agora elas est\u00e3o em fluxo cont\u00ednuo. Ou seja, em qualquer momento do ano pesquisadores do Estado de S\u00e3o Paulo podem submeter propostas em colabora\u00e7\u00e3o. Hoje temos v\u00e1rias redes, com gente de peso do Brasil e do Reino Unido, formando grupos em que h\u00e1 um respeito cada vez maior \u00e0 comunidade cient\u00edfica brasileira\u201d, conta Angela Kaysel Cruz, professora da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP-USP) e coordenadora da \u00e1rea de Biologia II da FAPESP.<\/p>\n<p>A pesquisadora atuou como membro de comit\u00eas de assessoramento e grupos de trabalho da Divis\u00e3o de Pesquisa em Doen\u00e7as Tropicais da OMS entre 1997 e 2006. Atualmente, coordena o Centro Reino Unido-Brasil para o Estudo da Leishmaniose (JCPiL), que tem diferentes linhas de pesquisa sobre o parasita causador da doen\u00e7a, como a compreens\u00e3o da diversidade gen\u00e9tica, virul\u00eancia, mecanismos de resist\u00eancia, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cOs parasitas da leishmaniose, da doen\u00e7a do sono e da doen\u00e7a de Chagas s\u00e3o todos da mesma fam\u00edlia, mas t\u00eam comportamentos muito diferentes entre si. S\u00e3o seres muito bem adaptados, que surgiram na Terra praticamente junto com os mam\u00edferos. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pela qual ainda s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis de combater\u201d, afirma Marcelo Santos da Silva, pesquisador do Instituto de Bioci\u00eancias de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (IBB-Unesp).<\/p>\n<p>Silva coordena um projeto financiado pela FAPESP na modalidade Jovem Pesquisador que estuda um grupo especializado de mol\u00e9culas presentes nesses parasitas. O trabalho busca compreender o papel delas no ciclo de vida dos tripanossomat\u00eddeos, a fim de verificar a possibilidade de serem exploradas futuramente como alvos de medicamentos.<\/p>\n<p>\u201cEnfrentar as doen\u00e7as tropicais negligenciadas \u00e9 um grande desafio, que n\u00e3o ser\u00e1 solucionado por uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o. Unir cientistas comprometidos do mundo todo \u00e9 o caminho do sucesso e elogio a FAPESP por essa abordagem. Parcerias como a da DNDi com a Funda\u00e7\u00e3o ajudam a trazer consci\u00eancia sobre a necessidade de pesquisa e desenvolvimento para essas doen\u00e7as, descobrir novos medicamentos e ajudar a capacitar mais jovens pesquisadores, que continuar\u00e3o esse trabalho ao longo de suas carreiras\u201d, encerra Mowbray, da DNDi.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Foto: Flickr\/M\u00f4nica R.\/Creative Commons<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enfermidades que afetam 1,7 bilh\u00e3o de pessoas no mundo, sobretudo pobres, recebem pouca aten\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e baixo investimento p\u00fablico Por Revista Galileu Enquanto o mundo<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":30167,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-30166","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=30166"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/30166\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=30166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=30166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmdf.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=30166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}